A Comunicação Curta é a + Forte
Especialistas começam a duvidar do peso da internet, dos SMS e das redes sociais nas dificuldades de escrita dos adolescentes
Começa a ser posta em dúvida a ideia generalizada de que o uso prolongado de tecnologias da comunicação necessariamente corrói anos de esforço de alfabetização. Estudo realizado este ano pela British Academy e pela Universidade de Coventry, na Inglaterra, mostrou que crianças e jovens que recorrem regularmente à linguagem abreviada em SMS (Short Message Service, serviço de mensagem curta) têm maior capacidade de soletrar e melhores resultados em testes de fluência verbal. Os pesquisadores também verificaram que há relação positiva entre o uso de SMS e a alfabetização, porque a leitura de abreviaturas típicas da linguagem cifrada da internet ("kbça" em vez de "cabeça", etc.) requer alta consciência da combinação de sons.
Para o consultor de marketing digital Denis Zanini é um equívoco atribuir aos celulares e às redes sociais a responsabilidade pela proficiência da escrita das crianças, já que eles são apenas os canais por onde a mensagem é encaminhada. A escrita depende da educação escolar, da feita em casa e em ambientes de convívio social.
__ Se ela não receber as orientações gramaticais adequadas, apresentará deficiências de escrita e leitura em qualquer tipo de texto, seja carta, artigo escolar, discurso, e-mail ou torpedo. Mídias sociais e celulares, por serem plataformas mais ágeis e imediatas, pedem escrita sucinta, condescente com abreviações. Com boa educação, as crianças terão discernimento e habilidade para usarem a escrita adequada a cada tipo de ocasião __ avalia.
Convergências
As professoras Dieli Vesaro Palma e Alexandra Geraldini,Doutoras em linguística aplicada e estudos da linguagem, acreditam que novos usos de tecnologias, como o de celulares para digitar e enviar escritos e não só para teclar chamadas, estimulam o desenvolvimento de novas habilidades.
O celular e computador requerem novas competências técnicas (o manuseio do teclado, da tela e do mouse, por exemplo) e comunicativas.
__ Isso significa que os usuários ampliam seus conhecimentos e competências, partindo das conhecidas rumo às novas. Escrever uma mensagem de texto para celular é diferente de redigir um post a ser publicado no Facebook e redigir um e-mail a um amigo que, por sua vez, terá características diferentes de um e-mail a ser enviado a um superior hierárquico. São formas diferentes de uso da língua, não melhores nem piores, porque são novos usos linguísticos decorrentes da influência da tecnologia.
Divergências
Para o professor Mauro Dunder, mestre em letras pela Universidade de São Paulo (USP), a pesquisa britânica não leva em conta avanços na alfabetização e letramento em produzir usuários mais competentes do idioma. Por sua vez, a pesquisa norte-americana parte do pressuposto de que a escrita formal, gramatical, é o padrão para qualquer uso de linguagem, além de desprezar o fato de que a gramática não precede o uso.
__ Se um usuário do idioma que tenha vivido no século 19 pudesse ter acesso ao modo como liam e escreviam os norte-americanos de meados do século 20 talvez fizesse a mesma constatação, a de que os mais recentes destruíram a língua que lhes fora deixada como herança __ compara.
Ele diz que as redes sociais têm uso próprio na língua da língua, criam códigos e, por definição, um usuário que transite entre diferentes normas linguísticas saberá que não se digita um SMS da mesma forma como se escrevem parágrafos jornalísticos, por exemplo.
__O problema está na adoção das diferentes formas em contextos aos quais não se aplicariam. Sou professor de uma escola de ensino médio e observo, in loco, alunos transferindo hábitos digitais para o texto manuscrito. Mas não creio que o número de alunos que faz isso tenha aumentado tão vertiginosamente assim __ diz.
Fonte: NATALI, Adriana, Revista Língua Portuguesa, Ano 8, Nº 86, Dezembro de 2012, p. 38-40.



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